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BlackBerry - Quase nada é sério



Há certa graça e tragédia na mera ideia de um filme sobre o BlackBerry, hoje só lembrado como o celular que o iPhone tornou obsoleto. Tragédia, pois, ao iniciar a obra, sabemos que o fracasso é inevitável, por mais altos que sejam os voos, e a graça deriva dessa mesma fonte. Afinal, é comum as produções sobre empreendimentos bem-sucedidos e que moldam, de alguma forma, nosso mundo atual, como "A Rede Social", os recentes "Air" e "Tetris".


Mas, com BlackBerry, a impressão é de que o diretor Matt Johnson quer brincar com os mitos que circundam a fundação de empresas de tecnologia, dando um aspecto exagerado a certos elementos. Basta observar, por exemplo, as óbvias próteses de calvície de Jim Balsillie, interpretado por Glenn Howerton de "It’s Always Sunny In Philadelphia", mais um sinal da piada, aliás, ou a exagerada peruca de Mike Lazaridis (Jary Baruchel) e a onipresente bandana de Doug Fregin (Matthew Johnson) para perceber que, talvez, a ideia não é uma representação 100% fiel da história da companhia canadense.

Esse trio representa temas importantes para a narrativa, cada um representando uma faceta do sonho empreendedor: Jim é o empresário impiedoso, encarnação do capitalismo selvagem, que não teme humilhar quem for para conseguir seus objetivos. Mike é o gênio, capaz de encontrar soluções onde ninguém as vê, mas absolutamente incapaz de gerir um negócio com a agressividade necessária. Já Doug é um aspecto mais inocente do business, que nunca deixa de ver a situação como uma reunião de amigos, o que tem seu valor, mas quando se há milhões de dólares em jogo, talvez seja mais um entrave.


Todos esses personagens são versões mais simplificadas de suas versões reais, simplificadas e exageradas, gerando uma rápida identificação de quem é quem na trama e ajudando também nos momentos dramáticos. Quando Mike deixa Doug para acompanhar Jim em uma negociação, entendemos que não é somente uma amizade que está se fragmentando, mas todo um aspecto de sua vida está sendo deixado para trás, para o bem ou para o mal.


Essa natureza simples de BlackBerry dá ao filme um movimento propulsivo aos acontecimentos, o espectador sempre entende o que está em jogo a cada cena e, paradoxalmente, ajuda a ilustrar a complexidade necessária para a criação de uma empresa. Sim, o pontapé inicial foi dado por um bando de nerds amantes de Doom, mas não dá para ser assim sempre; figuras como Balsillie são necessárias para dar andamento às coisas, mesmo que ele seja um dos principais pontos de derrocada da empresa no futuro.


O estilo adotado por Johnson amarra todas essas questões por adotar uma abordagem quase documental, abrindo mão da precisão e clareza que marcaram filmes similares, como o já mencionado A Rede Social ou Jobs, mas algo um pouco mais bagunçado, impreciso e realista. Realçando o quanto tudo o que estamos vendo está longe de ser o ideal, mas é o que funciona, até não dar certo mais.


A tiração de sarro é bem-vinda, mas acaba prejudicando a tentativa de seriedade próxima ao final: é impossível levar 100% a sério a peruca de Baruchel nos momentos finais do filme, quando as falcatruas cometidas no passado vêm à tona e a piada tenta ganhar ares mais maduros. Não dá certo, mas esse pequeno desvio não atrapalha o que veio antes, e BlackBerry se destaca no meio de tantas histórias mais elogiosas aos produtos e seus criadores.


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